terça-feira, 22 de setembro de 2009

Se desfez dos adereços e se vestiu de nua...

Se desfez dos adereços e se vestiu de nua, se banhou em purpurina ainda na concentração. Aparecer no anonimato despertou os seus desejos e lotada de alegria se entregou a multidão. Não sabia o samba enredo, mas sorrir sabia até de cor. Uma flor recém formada, atrevida, linda e sensual, sob o olhar dos refletores, sempre doce imaginava, um imenso baile funk; só que era carnaval.

Quanto mais a morena “funkiava”, a galera ensandecida queria mais, pedia mais. A morena enlouqueceu a bateria e a cadência foi ficando para trás. Tamborins em desencontro enquanto o surdo atravessava, foi-se os pontos da escola no quesito de harmonia, a coisa até o mestre-sala e a comissão de frente se renderam aos pobres passos que a morena introduzia.

Momentaneamente cega pelos flashs da ilusão, mais um corpo de passista para a fama debutou. Nem pensou quando fala numa rede de TV, que foi por causa dela que a escola não ganhou.


Erasmo Carlos e Max De Castro
“A história da morena nua que abalou as estruturas do esplendor do carnaval”

terça-feira, 8 de setembro de 2009

E de novo aparece

E de novo aparece

Em frente ao computador,
o ventilador da máquina, constante, uniforme e rápido.
Um toque de telefone aqui, estridente, alto e amarelo.
Cliques desconexos, sem ritmo, em ritmo, rápidos e lentos.
Hoje, incrivelmente, faz silêncio.

Há passos na outra extremidade da sala.
Longe. Diminuindo. Ritmados.
Duas vozes conversando.
Não combinam, apenas se respeitam,
quando um fala, o outro faz silêncio.

Na frente da tela em branco eu não rendo.
Os cliques são lentos, fundos e demorados.
Afasto a cadeira, levanto e parto.
Ouso, ritmado e preto,
O som de meu sapato.

Aperto para subir, sem sinal de barulho.
Espero sozinho e um sinal me da um susto.
Arranha o metal quando a porta abre.
Um zunido lá dentro que não para.
O segundo ventilador, menos rápido e mais potente.

Sem sinal de barulho, aperto o sete.
Um sinal me dá um susto quando esperava sozinho.
Quando a porta abre, o metal arranha.
Lá de dentro, o zunido para.
Deixo pra trás o segundo ventilador, mais lento e menos fraco.

Essa altura não me agrada então procuro a escada.
A porta geme a dor de nunca ser usada.
Degrau por degrau, uma bateria deitada.
Cada passo um compasso.
Cada compasso uma respirada.

A porta agora deve ser muito requisitada.
Reclamou a dor de ser sempre empurrada.
Aqui em cima não me escuto.
Minha bala, que lá embaixo eu ouvia ser mastigada,
fica silenciada mediante o contato com o vento.

Apoio cabeça e mãos no para-peito.
Buzinas arrastadas, motores,
pessoas sem banda sonora.
Brecadas, músicas altas,
só batidas e levadas, sem cantores.

Algo próximo ao meu ouvido se manifesta.
Este não faz parte da orquestra.
Se cala.
Se dura um segundo é muito.
Não deve ser nada.

E de novo aparece.
Um som rápido, baixo e diferente.
Eu fico imóvel e aguardo.
E de novo aparece.
Dessa vez eu conto.

Um, Dezoito, dezenove, vinte.
E de novo aparece.
Um, Dezoito, dezenove, vinte.
E de novo aparece.
Há sempre um ritmo, um tempo.

E de novo aparece.
Alguém abre a porta. Fala boa tarde.
E de novo aparece.
Eu respondo o mesmo. Ela puxa um cigarro.
E de novo aparece.

Pega o isqueiro.
E de novo aparece.
Puxa, traga e expele.
E de novo aparece.
Eu me afasto, dou uns passos.

Silêncio.
Acabou se o ritmo.
Eu paro em pé. Fico imóvel.
A do cigarro dá um gemido,
se despede da bituca, abre a porta e me esquece.

E nada acontece.


(em algum mês de 2008)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A tv viu Guido, Guido sorriu...

A tv viu Guido,
Guido sorriu.
Ela chamou e ele entrou, ou
ele chamou e a incorporou.
Nada faz sentido
na cabeça bagunçada do autor.
Eu só quero escrever
sem passado
sem futuro
sem beleza
só a história, o meio, fim, começo.
Lógica sem lógica.
O espírito da história
cadê?