sexta-feira, 18 de junho de 2010

O homem que testemunhou Jesus pedir ao povo que perdoassem a ignorância de deus

De um egocentrismo ímpar, frente à morte do outro, refletir sobre você mesmo. Mas hoje eu não choro a perda, choro o significado. Saramago que tantas vezes descansou na minha cabeceira, hoje descansa. Sempre descansará.

Foi um professor de geografia, matéria insossa no ensino médio que resolveu colocar, no canto da lousa, uma dica cultural. Nada relacionando a matéria e sim à formação humana. Estava lá, branco no verde: O evangelho segundo Jesus Cristo. E lá estava eu, apenas carne no osso: um pateta completo, sentado como todos os outros, de saco cheio da aula. Só que o título interessou e fui até a biblioteca da escola. Não tinha o evangelho, mas tinha Ensaio sobre a cegueira. Peguei esse mesmo e grata surpresa.

Aquela construção, páginas inteiras com muros de palavras intransponíveis aos desatentos e covardes. Enfrentei o desafio e aquilo mudou minha vida. Até ontem eu achava que tinha sido pro causa de uma garota que escolhi fazer o curso de Rádio e TV na faculdade, uma área de humanas similar ao jornalismo, curso que ela queria, mas com menos candidatos por vaga. Uma história linda se não fosse eu passar e ela não, mas hoje descobri que não foi ela o motivo da minha decisão. Foi o Saramago. Tanto foi ele que, a primeira obra que me imaginei transpondo para as telas foi Ensaio sobre a cegueira. E como morri de raiva, numa inocência absurda, quando Meirelles anunciou o projeto. Aquela ideia era minha, dizia. Tornei-me um sonhador da arte. Era uma evolução e tanto para um pateta da sala de aula.

Elegi a subversão meu tema preferido graças a ele. E como eu adoro a subversão de suas obras. Subversão que tentei no meu trabalho de conclusão de curso, um roteiro de longa-metragem audacioso, que falhou como imagem, mas ganhou vida impresso, e hoje são quatro capítulos que seguem o formato de escrita do lusitano. Foi uma escolha inconsciente no começo, mas quando notada, foi devidamente analisada e tinha coerência. Saramago molda a linguagem para funcionar em função da história. A hierarquia é quebrada, num ato que só podia vir de um comunista mesmo. Eu precisava disso e escrever nomes próprios e a palavra deus com minúsculo pode parecer subversão pequena e boba se não houver sentido. Mas há.

E o roteiro que virou livro não podia ser apresentado no fim do ano, então tratei de resgatar outra ideia e colocar no papel. Um homem que não vê a si próprio, busca sua imagem e semelhança. Um narciso ao contrário. Findo o trabalho, devidamente apresentado e avaliado, um dos meus melhores amigos, que sabia do meu gosto pelo lusitano, me presenteia com um livro que eu já tinha lido, mas não relido: O homem duplo. A mudança na vida do homem que descobre que há alguém sua imagem e semelhança e então perde sua identidade. Meu amigo disse que leu a sinopse e viu que parecia muito com meu roteiro. Até hoje considero um dos maiores elogios que recebi.

Hoje estou formado e desempregado, alimentando um sonho de escrever para comer, mas sem saber por onde começar, com dúvidas se é o que eu gosto e tenho talento. Nasci como pensador ao ler Saramago e só hoje, com sua morte, me pego pensando sobre o que pensei durante todo esse tempo. E eu pensei o tempo todo. Essa constatação aquieta minhas dúvidas e me dá animo para não esmorecer. Agora eu choro o significado desse senhor que conheci impresso e que causou tamanha impressão pra mim.

Acabei de levar meu irmão na escola e cruzei com a primeira professora que tive na vida. Ela não me marcou. Não tenho irmão mais velho, então não tive ninguém próximo para imitar. Meu pai e minha mãe são referências, mas não sigo seus passos. Saramago foi o correspondente com quem nunca troquei uma carta, mas com quem tive a mais intensa troca de idéias. Muito obrigado, Saramago, por permitir que eu trilhe um caminho acompanhado por ti.

Forte abraço do leitor Rafael Potenza

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

É a maior conquista desse homem e ele chora como um bebê...

É a maior conquista desse homem e ele chora como um bebê. No meio de uma sala, praticamente toda a área do apartamento, de igual tamanho ao quarto de família que abandonou, ele chora sem postura. Chora com as costas arcadas e a cada lágrima entorta mais as pernas, sentido chão. Ele todo é um declive, uma parábola, um gráfico em decadência, um carro passa rente ao homem. Ele quase morreu e não ia se dar conta. Cada passo do homem é lento e toda a vontade dele é ir para trás, mesmo que sua casa fique em frente. Sua coluna torta o projeta adiante, mas uma corcunda é ironia: coloca qualquer face pra frente, mas diminui o tamanho do corpo. A corcunda era o reflexo da busca deste homem pelo decadente. O fracasso era a meta e quanto mais próximo da meta, mais distante da realização. Sentimentos antagônicos e por isso no meio da sala o homem curvou os joelhos: sua coluna atingiu o máximo que podia da corcunda, a meta de fracasso só teria sucesso ao se dobrar no chão. O choro é conseqüência, grito de glória, desespero de não saber o que quer quando atinge o almejado, barulho sujo de uma fechadura velha. Quando o homem coloca a chave na porta, sente o sucesso da empreitada. O fracasso está lá dentro e por isso o homem joga todas as suas roupas numa caixa de papelão. Não há ordem, há pressa. Quer sair da casa de sua família o quando antes, agora, já! Sua mãe alerta que há dois caminhos e uma escolha. Um dos caminhos é o natural e para ele já estava traçado, bastava trilhar, mas há sempre a escolha. Se optasse pelo outro, as pedras iam atrapalhar muito e as roupas tornaram-se pedras e todas são postas na caixa, sem ordem, com pressa. O homem fecha a caixa e com ela nas costas sai do quarto, sai da casa, ganha a rua e anda em frente, a caminho do fundo. A cada metro que anda a caixa ganha peso e as costas se curvam mais, cicatriz interna da sua trilha. Se o caminho tem pedras para atrapalhar, óbvio que não seriam obstáculos, e sim fardos, mas valente foi o homem que se arriscou, mesmo sem ter nobre intento. A chave quebra dentro da fechadura da porta, mas um chute basta para fazer as vezes do chaveiro. O apartamento é amarelo sujo e marrom velho, combinando, e muito, com a caixa de papelão que o homem arrasta para dentro. Segurar a caixa pelas bordas e arrastar é tarefa fácil para quem tem a coluna torta como ferradura. Uma vez que ambos, homem e caixa, estão prostrados no meio da sala, basta ao homem chorar a desgraça e o sucesso. O fracassado, como ele mesmo de adjetivou um dia desses, teve êxito no seu empenho. Prova disso é que chora como um feto no chão do seu apartamento.

sábado, 3 de outubro de 2009

Sempre me pergunto...

Sempre me pergunto qual minha necessidade de palavras: explicar, encantar ou chocar?